Ergonomia no posto de trabalho

Através dos princípios da conservação da energia e da proteção articular, podemos melhorar o nosso desempenho, aumentar a segurança e prevenir acidentes de trabalho ou doenças profissionais.
Foto de escritório com diversas pessoas e uma senho está à frente do portátil a massajar a zona da cervical

 

Ao longo dos anos, a ergonomia tem vindo a reforçar a sua importância, dada a preocupação crescente das empresas com o desempenho, conforto, saúde, segurança e bem-estar dos trabalhadores, bem como com a redução dos índices de acidentes e doenças do trabalho (1).  Desta forma, a ergonomia, enquanto ciência, procura estudar a adaptação do trabalho ao homem, abrangendo não só as máquinas e equipamentos utilizados, mas também todas as interações que ocorrem entre o Homem e o seu trabalho, procurando ajustá-lo às caraterísticas individuais do trabalhador, com ou sem diversidade funcional (2).

 

Podemos distinguir três domínios da ergonomia:

  • Ergonomia física: ligada às caraterísticas da anatomia, fisiologia e biomecânica humana, incluindo a postura no trabalho, a manipulação de materiais, os movimentos repetitivos, a projeção de postos de trabalho, entre outros (1).
  • Ergonomia cognitiva: ligada aos processos mentais incluindo, por exemplo, o stress e o cansaço mental. Foco, concentração, raciocínio e atenção são fatores extremamente importantes no desenvolvimento das atividades de qualquer empresa. Contudo, muitas vezes, há um desequilíbrio que leva os colaboradores à exaustão. Isso acaba por resultar num declínio na produtividade, erros mais frequentes, faltas e até mesmo burnout (1; 3).
  • Ergonomia organizacional: ligada às estruturas organizacionais, políticas e de processos. A ergonomia organizacional é a estrutura e tudo que ela engloba numa organização, seja uma empresa ou instituição, no que diz respeito às condições de trabalho. O fator mais relevante desta área da ergonomia é a comunicação entre as pessoas, as suas políticas, cooperação, trabalho em rede e gestão da qualidade nos processos (1; 4).

 

Neste texto será dado um maior enfoque ao domínio da ergonomia física pois, de facto, a postura e o movimento corporal, determinados pela tarefa e pelo posto de trabalho, têm grande importância na ergonomia.

De forma a potenciar o desempenho nas tarefas e a maximizar o conforto, a segurança e a prevenir acidentes de trabalho, devemos procurar adotar posturas e movimentos adequados. Para isso, é importante termos em atenção alguns princípios gerais e transversais a implementar, não só no trabalho como também nas diferentes atividades do quotidiano (5). Estes conselhos têm como premissa os Princípios/Técnicas de conservação de energia, com o objetivo de reduzir o gasto energético durante a realização de tarefas e atividades, diminuindo também a sensação de fadiga/cansaço e melhorando o desempenho; bem como a proteção articular, enquanto estratégia voltada para a manutenção da integridade articular; das capacidades funcionais e redução da dor e fadiga (6).

 

Recomendações no posto de trabalho
  • Ajustar a altura da superfície de trabalho de acordo com a tarefa

O uso de uma cadeira adequada não é suficiente para garantir uma postura correta. Se o plano de trabalho for muito alto, o trabalhador deverá elevar os ombros e os braços e, se muito baixo, trabalhará com as costas inclinadas para frente. Esta observação é válida tanto para trabalho sentado como para o trabalho em pé. Além disso, a posição das mãos, bem como o ponto de focalização dos olhos, têm uma grande importância para a postura da cabeça, tronco e braços (2; 7). 

Tipo de tarefaAltura da superfície de trabalho
Uso dos olhos: muito

Uso das mãos e braços: pouco

10 a 30 cm abaixo da altura dos olhos
Uso dos olhos: muito

Uso das mãos e braços: muito

0 a 15 cm acima da altura do cotovelo
Uso dos olhos: pouco

Uso das mãos e braços: muito

0 a 30 cm abaixo da altura do cotovelo.

 

Tabela: Recomendações para alturas das mãos e dos olhos, nas posturas sentada ou em pé
(sujeito a consideração mediante outras caraterísticas individuais da pessoa que possam ter impacto no desempenho)

 

  • Reservar espaço suficiente para as pernas e pés

Um espaço suficiente deve ser mantido livre sob a bancada ou máquina, para acomodar as pernas e os pés. Isso permite que a pessoa se aproxime do trabalho, sem necessidade de curvar o tronco. O espaço livre deve permitir também mudanças frequentes de postura, movimentando as pernas e os pés (2; 7). 

 

  • Evitar alcances excessivos

Os alcances excessivos com os braços devem ser limitados de forma a minimizar a inclinação ou rotação do corpo. Para isso, devemos colocar os materiais e ferramentas de uso mais frequente mais perto do corpo, preferencialmente num raio de até 50 cm – tendo como ponto de referência a articulação do ombro (este valor pode sofrer alterações mediante determinadas caraterísticas anatómicas na pessoa). Estes valores aplicam-se tanto ao posto de trabalho em pé como sentado (2; 7).

 

  • Colocar uma superfície inclinada para leituras

Para leituras e outras tarefas que exijam um acompanhamento visual contínuo, a superfície deve ser inclinada, de forma a aproximar o trabalho dos olhos e evitar a curvatura do tronco e, sobretudo, da cervical. No caso da leitura, a recomendação da inclinação é aproximadamente 45º (7).

 

  • Alternar a posição sempre que possível

Não é recomendado passar o dia todo na posição de pé, pois leva a uma maior sobrecarga das costas e pernas, levando precocemente à fadiga. Um stress adicional, que ainda pode comprometer mais a saúde e a produtividade do trabalhador é quando, ou pelo posto de trabalho que não está ajustado ou até mesmo pela natureza do trabalho, o trabalhador necessita de estar com o tronco inclinado ou com os braços levantados (7). Trabalhar sentado, de forma prolongada, é igualmente prejudicial para a saúde na medida em que leva a uma sobrecarga do músculo cardíaco; os batimentos tornam-se mais rápidos na tentativa de proteger o organismo garantindo a irrigação para todas as regiões, principalmente dos membros inferiores (8).

 

  • Proporcionar variações de tarefas e atividades

É importante, não só por parte da entidade empregadora, mas também do próprio trabalhador, perceber de que forma o seu trabalho permite fazer pequenas alterações de forma a evitar, ou pelo menos reduzir, posturas prolongadas (7).

 

  • Conservar os pesos próximos ao corpo, sobretudo durante o transporte

Na medida do possível, os pesos devem ser mantidos próximos do corpo sempre que transportados. Quanto mais o peso estiver afastado, maior tensão será aplicada nos braços, obrigando o corpo a inclinar para a frente, podendo levar a um aumento da tensão também nas costas. Como resultado, dor e outras complicações mais graves podem surgir (7).

 

  • Evitar manter uma postura curvada para a frente e torções do tronco

Os períodos prolongados com o corpo inclinado para a frente devem ser evitados o mais possível de forma a prevenir o surgimento de dores nas costas, nomeadamente na região lombar. Posturas torcidas do tronco provocam tensões indesejáveis nas vértebras. Além disso, as articulações e músculos dos dois lados da coluna vertebral são sujeitos a cargas assimétricas, o que é bastante prejudicial, podendo a levar não só a dor momentânea como podem instalar-se complicações mais sérias se prolongado no tempo (2; 7).  

 

  • Evitar movimentos bruscos que produzem picos de tensão

Movimentos bruscos podem produzir picos de alta tensão, de curta duração, resultado de uma aceleração do movimento. Esta aceleração pode provocar lesões, sobretudo se não houver um prévio aquecimento da musculatura envolvida (7).

 

  • Considerar as diferenças individuais físicas de cada pessoa

Ao projetar um posto de trabalho, devem ser consideradas as diferenças físicas de cada um, de forma a evitar postos de trabalho não adequados e que condicionem o desempenho do trabalhador ou, até mesmo, coloquem a sua saúde e segurança em risco (7).

 

  • Fazer pausas curtas e frequentes

A pausa pode ser uma interrupção da tarefa ou a substituição por uma mais leve, de forma a minimizar a fadiga, a prevenir lesões e aumentar os níveis de produtividade. A exaustão muscular deve ser evitada uma vez que a musculatura envolvida irá demorar muito mais tempo a recuperar, condicionado significativamente o desempenho do indivíduo por vários minutos ou até horas (2; 7).

 

  • Manter o posto de trabalho limpo e arrumado

É importante manter o posto de trabalho limpo, arrumado e sem materiais desnecessários que possam comprometer o desempenho ou até mesmo serem foco de risco acrescido para a segurança do trabalhador (13).

 

  • Manter uma iluminação adequada, bem como controlar os níveis de ruído, conforto térmico e ventilação

A iluminação desajustada nos locais e postos de trabalho pode potenciar a adoção de comportamentos inseguros, a adoção de posturas de trabalho incorretas e a redução da produtividade. É ainda importante garantir condições de conforto térmico, controlo dos níveis de ruído e promover uma boa ventilação do espaço para segurança e saúde do trabalhador (13).

 

  • Realizar exercícios de ginástica laboral

Praticar exercícios simples e alongamentos nas pausas durante a jornada de trabalho é fundamental. A ginástica laboral promove a circulação sanguínea; o relaxamento da musculatura envolvida nas tarefas e atividades de trabalho; a mobilidade articular e a postura corporal global, contribuindo assim para a prevenção de acidentes de trabalho por exaustão e de lesões ocupacionais. Além disso, pode melhorar o ânimo e a envolvência no trabalho e promover a socialização entre a equipa (10).

 

  • Utilizar uma boa cadeira ajustável, especialmente no posto de trabalho sentado fixo

Uma boa cadeira é fundamental, não só para melhorar o conforto e prevenir doenças do trabalho como também, e em consequência, potenciar a produtividade e a eficácia no trabalho. Assim, uma boa cadeira no posto de trabalho sentado deve ter como caraterísticas:

    • A cadeira deve ser estofada e com tecido que permita a transpiração. O estofamento reduz a pressão na região posterior das coxas, facilitando a circulação, e reduz a pressão nos discos intervertebrais, diminuindo a incidência de patologia discal;
    • A altura da cadeira deve ser regulável;
    • A cadeira deve ter apoio de braços também regulável;
    • A dimensão anteroposterior do assento não deve ser nem muito comprida nem muito curta. O tamanho ideal é aquele em que as coxas fiquem completamente apoiadas, porém, sem compressão da região posterior dos joelhos;
    • A borda anterior do assento deve ser arredondada para evitar compressão das artérias, veias, nervos e tecidos da região posterior das coxas;
    • Manter um bom ângulo entre o tronco e as coxas, que deve ser entre os 90º e os 100º;
    • Deve haver espaço na cadeira para acomodar as nádegas;
    • O encosto deve, se possível, ser um pouco móvel para acompanhar o movimento das costas. O apoio para o dorso deve ter uma forma que acompanhe as curvaturas da coluna, sem retificá-la, mas também sem acentuar as suas curvaturas.
    • Cadeiras giratórias para quando o trabalho exigir mobilidade. A cadeira deve ter 5 apoios, visando a estabilidade;
    • Os pés devem estar sempre apoiados no chão e, pessoas mais baixas devem usar os suportes para apoiar os pés;
    • Deve haver espaço suficiente para as pernas debaixo da mesa ou posto de trabalho (2; 7; 9).

 

  • Utilizar o computador, em atividades laborais que o exijam, de forma adequada
    • A borda superior do monitor deverá ficar na linha dos seus olhos. Caso o equipamento não conte com a possibilidade de ajuste de altura, uma opção é colocar livros ou revistas em baixo do monitor, até à altura ideal, servindo assim como suporte (o mesmo se aplica em computadores portáteis);
    • O ângulo de inclinação deverá ficar entre 10° a 20°;
    • A distância entre o monitor e o trabalhador deverá ser aproximadamente o comprimento dos membros superiores do utilizador;
    • É importante que o monitor fique perpendicular às janelas, evitando ofuscamentos e reflexos;
    • Se necessário, utilizar um filtro antirreflexo no ecrã do monitor;
    • Utilizar teclado e rato ergonómicos, com suporte para o punho. No caso de computadores portáteis, utilizar rato e teclado extra;
    • Deixar os “pés” do teclado para baixo;
    • O utilizador deve estar devidamente sentado numa cadeira com as caraterísticas já mencionadas previamente (11).

 

 

Considerações finais

As instituições e empresas estão cada vez mais empenhadas na criação de um dinamismo facilitador para a sua evolução, produtividade, economia, ou seja, criar meios que otimizem tempo e o alcance das suas metas. Nesse contexto, um dos fatores de grande importância e influência é a ergonomia, enquanto ferramenta multidisciplinar e holística que abrange os mais diversos setores e componentes da instituição ou empresa, suas possíveis consequências e interações, impactando desde aspetos físicos, cognitivos e organizacionais.

O desempenho produtivo de uma organização depende das condições ergonómicas que ela disponibiliza, procurando reduzir a fadiga, o stresse, os erros e os acidentes de trabalho e doenças profissionais, de forma a proporcionar uma maior segurança, satisfação e saúde aos trabalhadores, para que tenham uma melhor qualidade de vida e maior motivação e empenho no trabalho. Além disso, possibilita também uma melhoria nas comunicações entre os membros da equipa e dos fluxos de processo. Para uma entidade empregadora, a aplicação de métodos ergonómicos é essencial, pois reduz o absenteísmo, aumenta a produtividade, a qualidade do produto, a motivação e a qualidade de vida no trabalho, proporcionando mais do que um posto de trabalho melhor, mas também uma vida melhor no trabalho. Permite ainda levar a organização a um crescente desenvolvimento e contribui para que esta permaneça competitiva e alcance o sucesso (12).

 


  1. Jardim, M. e Longhini, T. (2021); Postural and Job Analysis of a Call Center Service; Revista Latino-Americana de Inovação e Engenharia de Produção, v9, nº5, Brasil
  2. Forcelini, F., et alli; (2010); A Evolução dos Postos de Trabalho: aspectos ergonómicos dos escritórios em Blumenau/SC; Brasil
  3. Clinimedjoinville.com.br
  4. Blog.ergotec.com.br
  5. Viana, F., (2014), Avaliação Ergonómica do Posto de Trabalho de Pessoas com Deficiência Física; Universidade do Ceará; Fortaleza, Brasil.
  6. Torquetti, A., Campos, T., Noordhoek, J., Cassiano, J.; (2008); Programas de proteção articular para indivíduos com artrite reumatóide: uma revisão da Literatura; Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, v19, nº2; São Paulo, Brasil
  7. Dul, J., Weerdmeester B.; (2017); Ergonomia Prática, 3ª ed; Brasil.
  8. Previva.com.br
  9. Ambrosi, D., Queiroz, M.; (2004); Compreendendo o Trabalho da Costureira: um enfoque para postura sentada; Revista Brasileira de Saúde Ocupacional; São Paulo.
  10. Lima, V.; (2018); Ginástica Laboral, 4ª ed; São Paulo.
  11. Pagnan, J, Silveira, R., Possamai, R., Pereira, R., Longen, W. (s.d.); Trabalho em Casa e Ergonomia
  12. Marques, A., Tavares, e., Souza, J., Magalhães, J., Léllis, J.; (2010); A Ergonomia como um Fator Determinante do Bom Andamento de Produção; Revista Anagrama: Revista Científica Interdisciplinar de Graduação; São Paulo
  13. Lucas, R.; (2016); Avaliação do conforto ambiental: um estudo de caso em um laboratório de uma Faculdade na cidade de João Pessoa; Brasil

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