Doença oncológica e os seus impactos na vida ativa e profissional

Saiba o que pode facilitar o retorno ao trabalho
Imagem de destaque do artigo - secretária, uma pessoa ao computador e um post it com "Bom regresso" escrito

A doença oncológica tem impactos na qualidade de vida das pessoas, podendo criar barreiras no regresso à vida ativa e profissional. Conheça o que pode facilitar esse regresso ao trabalho após doença oncológica.

No ano de 2020, Portugal registou quase 60 500 indivíduos diagnosticados com uma doença oncológica1. Nas últimas décadas, apesar da sua incidência e mortalidade, verifica-se um aumento significativo da esperança média de vida, levando a que cada vez mais pessoas sobrevivam ao cancro e consigam viver para além deste2.

 

IMPACTOS DA DOENÇA ONCOLÓGICA

O aparecimento de uma doença oncológica é um acontecimento de vida adverso que acarreta uma multiplicidade de repercussões. Os seus impactos podem ser causados pela própria doença, pelos tratamentos ou por outras doenças associadas. Os impactos e o modo como são vividos variam de pessoa para pessoa.

Algumas pessoas descrevem também impactos positivos, como a valorização do momento presente e dos “pequenos” prazeres do quotidiano, a redescoberta de si próprio e a capacidade de transformar uma experiência de dor e sofrimento numa oportunidade de crescimento pessoal.

cognitivos

Dificuldades

  • de atenção, concentração e velocidade de processamento (estando mais lenta)
  • de memória (lapsos/ dificuldades de recordar nomes e datas)
  • de aprendizagem
  • na resolução de problemas
  • na realização de múltiplas tarefas
  • no processamento da informação

na vida íntima e sexual

  • Diminuição do desejo sexual e do prazer sexual
  • Alterações na vivência da intimidade e sexualidade

emocionais

  • Sentimentos de tristeza e de incapacidade
  • Perda de prazer nas atividades
  • Desespero
  • Pensamentos recorrentes sobre saúde/ medo da recidiva
  • Stresse

vida ativa, profissional e nos projetos de futuro

  • Incerteza face ao futuro
  • Mudança nas rotinas, regras e rituais
  • Dúvidas sobre como comunicar com a entidade empregadora
  • Dificuldades no retorno ao trabalho (dificuldade em desempenhar algumas tarefas ou impossibilidade de desempenhar a mesma profissão)
  • Receio da mudança para atividades profissionais de menor prestígio social e menos qualificadas
  • Alteração da identidade profissional

físicos

  • Alterações corporais e da funcionalidade
  • Alterações do sono
  • Fadiga
  • Dor
  • Alterações da imagem corporal

sociais e familiares

  • Alterações das relações com os outros – cônjuge, filhos, amigos, familiares, conhecidos, …
  • Tendência ao isolamento por parte da pessoa
  • Representações sociais acerca da doença (tabu, discriminação, …)
  • Redução das oportunidades de participação social
  • Diminuição das atividades recreativas e de lazer
  • Vivência da doença oncológica como uma experiência familiar

 

existenciais e espirituais

  • Ausência/ reconstrução do sentido de vida
  • Religiosidade e espiritualidade alterada
  • Sentido de (in)utilidade

financeiros

  • Despesas associadas à doença
  • Diminuição/ perda de rendimentos

DOENÇA ONCOLÓGICA E VIDA PROFISSIONAL

A doença oncológica é uma condição de saúde que pode causar um profundo impacto na vida profissional. Após um período de ausência do mercado de trabalho, que pode ser longo, devido a tratamentos médicos e alterações físicas e mentais, a pessoa com doença oncológica passa por um novo desafio e uma nova realidade – a reintegração profissional.

A reintegração profissional promove a recuperação e reabilitação, minimiza os efeitos físicos, mentais e sociais, reduz o risco de incapacidade a longo prazo, promove a plena participação na sociedade e a independência, melhora a situação financeira, aumenta a atividade física e devolve o sentido de retorno à “normalidade”3. As alterações físicas, cognitivas, psicológicas e emocionais que se mantêm após conclusão da fase mais intensiva dos tratamentos podem afetar a capacidade de trabalho, dificultando a sua permanência ou reentrada no mercado de trabalho.

Sendo o trabalho um fator fundamental para a qualidade de vida, é importante conhecer quais as principais barreiras e fatores facilitadores identificados para o retorno ao trabalho, após doença.

Principais barreiras e facilitadores no retorno ao trabalho

  • Longo período de ausência ao trabalho
  • Gravidade dos impactos cognitivos, físicos e emocionais
  • Insatisfação prévia com o ambiente de trabalho/atividade profissional
  • Receios na retoma ao emprego por sentir que não consegue corresponder às expetativas
  • Falta de informação, aconselhamento e apoio sobre a reabilitação profissional, durante ou após os tratamentos
  • Desconhecimento/ receios dos empregadores/ colegas de trabalho sobre como apoiar o retorno ao trabalho
  • Manutenção de contacto entre a pessoa e a entidade empregadora durante o período de ausência.
  • Existência de suporte social dentro e fora do local de trabalho.
  • Recetividade por parte da entidade empregadora para adaptar as condições de trabalho e as atividades profissionais (ex.: adaptações físicas, horário de trabalho flexível).
  • Conhecimento alargado da doença por parte da entidade empregadora.
  • Acesso a programa de reabilitação e reintegração profissional dirigido à pessoa e à entidade empregadora.

VIVE COM DOENÇA ONCOLÓGICA?

SAIBA O QUE PODE FAZER PARA FACILITAR O RETORNO AO TRABALHO APÓS DOENÇA

🟡 Pense no retorno ao trabalho como parte da reabilitação.

🟡 Esteja motivado/a na retoma ao emprego ou na procura de um novo emprego.

🟡 Pratique atividades prazerosas, pois ajudam na diminuição da ansiedade, do stresse e dos pensamentos ruminativos.

🟡 Faça estimulação cognitiva durante o percurso da doença, de forma a minimizar os possíveis impactos cognitivos dos tratamentos (sopa de letras, palavras cruzadas, ler, escrever…) e procure apoio especializado, se necessário.

🟡 Partilhe os seus receios e preocupações sobre o retorno ao trabalho com algum familiar, amigo e/ou entidade empregadora.

🟡 Comunique com a entidade empregadora e colegas de trabalho durante todo o período de ausência.

🟡 Se tem indicação para voltar ao trabalho, mas sente ainda algumas limitações no desempenho profissional, explore a possibilidade de fazer uma retoma progressiva (regime part-time, desempenho de atividades mais fáceis e que requerem menos esforço, aumento do número de pausas, …).

🟡 Se está em situação de desemprego, aproveite para refletir sobre as suas aspirações, sobre o trabalho que o/a faria feliz.

🟡 Considere investir na sua formação para atualizar conhecimentos e manter-se ao corrente de possíveis mudanças, permitindo aumentar a autoconfiança.

🟡 Esteja informado/a sobre os seus direitos e sobre as medidas de apoio à contratação/ manutenção do emprego dirigidas às pessoas com diversidade funcional associadas a deficiências e incapacidades.

🟡 Procure o apoio de entidades especializadas na reabilitação profissional após doença, como o CRPG, para reduzir/compensar os impactos emocionais, cognitivos e físicos e para preparar a reintegração profissional.

Conheça mais sobre as ⇒ soluções do CRPG dirigidas a pessoas com doença oncológica.

 

Necessita de apoio para manter/ voltar ao trabalho?

________________________

1 Globocan – Global cancer statistics 2020

2 Chirlaque, M. D., Salmerón, D., Ardanaz, E., Galceran, J., Martínez, R., Marcos-Gragera, R., Sánchez, M. J., Mateos, A., Torrella, A., Capocaccia, R., & Navarro, C. (2010). Cancer survival in Spain: estimate for nine major cancers. Annals of oncology: official journal of the European Society for Medical Oncology, 21 Suppl 3, iii21–iii29. https://doi.org/10.1093/annonc/mdq082

3 Waddell G, Burton AK. Is work good for your health and wellbeing? London: The Stationery Ofce (TSO); 2006. https://cardinal-management.co.uk/wp-content/uploads/2016/04/Burton-Waddell-is-work-good-for-you.pdf

Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (2018). Reabilitação e regresso ao trabalho após o cancro — instrumentos e práticas.

Cooper, A. F., Hankins, M., Rixon, L., Eaton, E., & Grunfeld, E. A. (2013). Distinct work-related, clinical and psychological factors predict return to work following treatment in four different cancer types. Psycho-oncology, 22(3), 659–667. https://doi.org/10.1002/pon.3049

Kiasuwa Mbengi, R., Otter, R., Mortelmans, K., Arbyn, M., Van Oyen, H., Bouland, C., & de Brouwer, C. (2016). Barriers and opportunities for return-to-work of cancer survivors: time for action–rapid review and expert consultation. Systematic reviews, 5, 35. https://doi.org/10.1186/s13643-016-0210-z

EU-OSHA, 2018; Macmillan Cancer Support. https://www.macmillan.org.uk/

Skaczkowski, G., Asahina, A., & Wilson, C. (2020). Returning to Work After Cancer in Australia: What Facilitates a Positive Return to Work Experience?. Journal of occupational rehabilitation, 10.1007/s10926-020-09881-3. Advance online publication. https://doi.org/10.1007/s10926-020-09881-3

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